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Sobre a esquerda: uma conversa com Sheri Berman

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Beatriz Rey
mai 05, 2025
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The Primacy of Politics: Social Democracy and the Making of Europe's Twentieth Century
Capa do livro “The Primacy of Politics: Social Democracy and the Making of Europe's Twentieth Century”, de Sheri Berman

Ainda estava no mestrado quando li pela primeira vez o artigo “Civil Society and the Collapse of the Weimar Republic”, de Sheri Berman, professora de ciência política no Barnard College. Nele, Berman desmonta uma ideia que até então eu considerava óbvia: a de que uma sociedade civil ativa é, por definição, benéfica para a democracia. A partir daí, fiquei viciada em desconstruir certezas — como ela faz no texto.

Passei a acompanhar tudo o que ela escreve. O livro sobre a social-democracia é brilhante. O sobre democracias e autocracias também. Por isso, foi uma honra conversar com ela. Berman me ajudou a entender uma das contradições mais profundas da democracia norte-americana: suas instituições permanecem praticamente inalteradas desde o século XVIII (sim, ainda temos o Colégio Eleitoral), mas a definição de quem pertence à comunidade política nunca foi resolvida. Isso alimenta meu fascínio — e também meu ceticismo — em relação ao experimento democrático dos Estados Unidos.

Falamos também sobre o novo livro de Ezra Klein e Derek Thompson, “Abundance”, e sobre a falta de autocrítica da esquerda americana (e, para mim, da esquerda em geral). Berman elogiou a ideia do historiador e político português Rui Tavares (outra referência intelectual minha) de que a esquerda precisa criar “objetos de desejo político” para contrabalançar os “objetos de medo” mobilizados pela extrema-direita.

No livro sobre a social-democracia, ela argumenta que a política identitária enfraquece esse arranjo (e a própria democracia) ao corroer os fundamentos do comunitarismo. Na conversa abaixo, Berman reforça essa posição e defende o universalismo como o caminho mais sólido para a esquerda. Sua análise me lembrou a fala do prefeito do Recife, João Campos, em um debate que tivemos recentemente na Fundação FHC.

De nosso papo, ficou uma pergunta parecida com a que fiz a Campos. O universalismo é capaz de enfrentar desigualdades profundas? No Brasil, por exemplo, dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 35% da população preta e parda vive com apenas R$ 468 mensais — praticamente o dobro da proporção de pessoas brancas na mesma situação de pobreza. A disparidade se repete entre os que vivem na extrema pobreza.

Diante de desigualdades estruturais tão marcantes, como deve ser desenhada uma política universalista que não apenas inclua, mas efetivamente corrija essas assimetrias históricas? Como construir um universalismo que não trate todos como se partissem do mesmo lugar, mas que reconheça as distâncias de partida e atue para reduzi-las?

No caso das desigualdades raciais, tenho refletido cada vez mais sobre como a resposta passa por ampliar a presença da população negra nos espaços de poder. Não se trata apenas de incluir vozes negras na formulação de políticas raciais, mas de garantir sua participação nas decisões que definem o futuro do país. Ou seja: essa presença não deve se restringir ao tratamento de “suas próprias pautas”. Como assegurar essa participação de forma consistente dentro de um projeto que se pretende universalista é uma das questões que sigo investigando.

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