Sobre Artemis II

No caminho para a academia hoje cedo, escutei o boletim diário da BBC Global News sobre o lançamento da Artemis II, que, neste momento, conduz o primeiro astronauta negro e a primeira mulher em um voo tripulado ao redor da Lua. Em meio às comemorações dos jornalistas, ao destacarem a primeira vez em que olhos humanos observariam diretamente a face oculta da Lua, fiquei pensando no prólogo de A Condição Humana, de Hannah Arendt, que estou relendo neste momento. Arendt abre o texto assim:
Em 1957, um objeto terrestre, feito pela mão do homem, foi lançado para o universo, onde durante algumas semanas girou ao redor da Terra segundo as mesmas leis de gravidade que governam o movimento dos corpos celestes — o Sol, a Lua e as estrelas. (…) Este acontecimento, que em importância ultrapassa todos os outros, até mesmo a desintegração do átomo, teria sido saudado com a mais pura alegria não fossem as suas incômodas circunstâncias militares e políticas. O curioso, porém, é que essa alegria não foi triunfal; o que encheu o coração dos homens que, agora, ao erguerem os olhos para os céus, podiam contemplar uma das suas obras, não foi orgulho nem assombro perante a enormidade da força e da proficiência humanas. A reação imediata, expressa espontaneamente, foi alívio ante o primeiro “passo para libertar o homem da sua prisão na terra”.
É diante da perplexidade diante de tal reação que Arendt coloca a proposta do livro que escreve: “O que proponho, portanto, é muito simples: trata-se apenas de refletir sobre o que estamos a fazer”.
No caminho de volta da academia para um café, li este texto, segundo o qual o laboratório da OpenAI (uma organização privada que desenvolve e implementa sistemas de inteligência artificial) divulgará em breve uma série de artigos com novas ideias de políticas públicas para a era da superinteligência. O intuito, diz o texto, é apresentar propostas para “repensar o contrato social” e “construir uma superinteligência que funcione para todos”. O texto sugere, de maneira otimista, que os artigos talvez tratem da redistribuição de riqueza.
Ontem, em um evento da Inter-Parliamentary Union (IPU) sobre alfabetização em IA, uma pessoa que trabalha com modernização legislativa na House of Commons do Reino Unido deu o seguinte relato:
Observamos, no nosso trabalho de capacitação no Parlamento do Reino Unido, que lidamos com três grupos aproximadamente do mesmo tamanho, entre funcionários e parlamentares: cerca de um terço são adotantes entusiastas de tecnologias relacionadas à IA (especialmente à IA generativa) e estão experimentando com elas. O segundo terço está interessado e curioso, mas ainda não sabe bem como utilizá-las, seja no dia a dia ou no trabalho. O terço final é cético, não tem interesse ou considera tudo isso um exagero. Pergunto se isso também se verifica em outros países e sistemas.
Estou longe de fazer parte do terceiro grupo. Uma parte do meu trabalho é entender como a IA pode ajudar parlamentos a melhorar seus processos internos (ela pode, de fato). No entanto, parece-me que, no momento em que a Artemis II está no espaço e uma empresa de IA se propõe a nada menos do que repensar o contrato social, as palavras de Arendt tornam-se, mais uma vez, particularmente necessárias: precisamos refletir sobre o que estamos fazendo.
É por isso que tenho relido Arendt e voltado às leituras sobre o seu pensamento. Ela continua a ser o meu guia sobre como pensar um mundo cada vez menos coerente. Mas isso, por si só, não basta. É preciso tomar parte na atividade humana da ação, no sentido mais exigente que Arendt lhe atribui.
Não sei o que isso significa para cada um de vocês, mas, para mim, tem significado criar espaços de pensamento e ação que nos devolvam a capacidade de refletir, coletivamente, sobre como definimos e disputamos os rumos do nosso mundo comum. Assistir passivamente a uma empresa de IA assumir essa tarefa — sem contrapartidas, sem mecanismos de contestação, sem exercício efetivo de pluralidade — parece-me um caminho perigoso, que pode aprofundar ainda mais a fragilidade da nossa já precária esfera pública.
Talvez enquanto celebramos o fato de que nossos olhos finalmente alcançam a parte invisível da Lua, estejamos deixando de olhar para o espaço entre nós — justamente onde a política acontece e onde o mundo comum pode, ainda, ser construído.

