Sobre contraintuição
Uma conversa com o deputado federal equatoriano Keevin Gallardo Ruiz sobre como reimaginar a política
Estou em Istambul, na Turquia, como observadora convidada na 152ª Assembleia da Inter-Parliamentary Union (IPU). Sempre tive o sonho de conhecer a cidade e fico muito feliz por finalmente realizá-lo (ou seja, neste momento, estou em um estado quase oposto ao hüzün melancólico descrito pelo escritor turco Orhan Pamuk em Istambul).
Nos últimos dias, tenho conversado com parlamentares de diferentes países para entender como enxergam a política hoje e como a reimaginariam. Um desses encontros foi com o equatoriano Keevin Gallardo Ruiz, de 29 anos, eleito pelo partido de centro-direita Ação Democrática Nacional (ADN), legenda também do atual presidente Daniel Noboa. Procurei-o após uma intervenção dele no Fórum dos Parlamentares Jovens da IPU, na qual destacou que o Equador possui o segundo parlamento com o maior número de jovens do mundo. Isso me levou a supor que ele poderia trazer reflexões interessantes sobre como reimaginar a política.

Ruiz não propõe uma reimaginação da política nem no plano conceitual, nem na forma de compreendê-la em sua essência, mas no terreno das práticas. Sua definição de política — centrada na ideia de serviço público — recorre a um repertório amplamente difundido e, em certa medida, aproxima-se de uma linguagem mais moralizante (e, talvez, populista).
Quando ele desloca a discussão para a prática, suas ideias se organizam em torno de três eixos: ampliar o acesso à política, reduzindo a dependência de recursos financeiros para disputar eleições; reformar o sistema partidário, com o fechamento dos chamados “partidos de aluguel” e a redução do número de legendas (uma proposta com traços autoritários; a ideia de fechamento de partidos políticos me causa, no mínimo, desconforto, ainda que eu não veja partidos de aluguel com bons olhos); e fortalecer a formação política, com a criação de mecanismos que garantam não apenas a presença, mas também a participação efetiva de jovens na vida partidária.
A conversa foi interessante porque, embora situado à direita do espectro político, Ruiz defende uma proposta que tensiona expectativas convencionais: ampliar o acesso às candidaturas para lideranças de áreas rurais e indígenas, frequentemente excluídas por barreiras econômicas. Há aqui um elemento de contraintuição que merece atenção. Sua experiência pessoal — especialmente a necessidade de se endividar para financiar a própria campanha — aparece como um elemento estruturante do seu diagnóstico, o que me leva a pensar em como trajetórias individuais podem ser mobilizadas na construção de pontes de diálogo.
Essa mobilização da própria trajetória, no entanto, também se manifesta de forma menos promissora. Em alguns momentos, a fala de Ruiz assume um tom mais próximo do discurso de campanha: ao ser questionado sobre diferenças entre parlamentares jovens e mais experientes, ele desloca a discussão para a sua própria produção legislativa, tomando-a como medida de desempenho parlamentar. Essa associação, no entanto, não é necessariamente válida. A mobilização legislativa — especialmente a apresentação de projetos de lei — é apenas uma das várias dimensões possíveis de avaliação e, por si só, não permite aferir a qualidade do trabalho parlamentar.
Mais do que o conteúdo específico das propostas, a conversa reforçou algo mais fundamental (já que eu não esperava ouvir algumas das posições que ele apresentou): a importância do diálogo e da escuta como práticas constitutivas da política.



