Sobre Flávio Bolsonaro

A candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro para 2026 foi anunciada com uma antecedência incomum. O movimento não se explica por força eleitoral ou por estratégia tradicional de campanha, mas sim por uma disputa interna pela autoridade em um campo político que perdeu sua figura central de comando. O anúncio foi, antes de tudo, uma resposta a uma crise no próprio bolsonarismo.
Por que Flávio anunciou tão cedo?
A crise Michelle–Ciro
O estopim ocorreu quando parte do PL no Ceará sinalizou apoio a Ciro Gomes para a eleição estadual de 2026. Michelle Bolsonaro reagiu publicamente e vetou o movimento. Esse episódio, aparentemente localizado, expôs uma dinâmica mais profunda: a marca Bolsonaro pode ser ativada sem o seu comando.
O que a crise revelou internamente:
Michelle exerceu poder de veto sobre alianças estaduais;
Dirigentes do PL se sentiram livres para negociar sem consultar a família;
O capital simbólico de Bolsonaro não garantiu disciplina partidária.
Flávio se lançou como candidato indicado pelo pai para restabelecer hierarquia. A mensagem é que o comando do projeto ainda pertence à família. Não pertence, isoladamente, a Michelle, aos diretórios estaduais ou ao Centrão. O anúncio serviu para centralizar a negociação: a partir de agora, quem quiser falar em nome do bolsonarismo precisa falar com Flávio.
A candidatura como moeda
Pouco depois do anúncio, Flávio sugeriu que poderia não ir “até o fim” da disputa, desde que houvesse uma anistia ampla para os acusados de 8 de janeiro (incluindo Jair Bolsonaro).
Isso expôs a função estratégica da candidatura:
Criar poder de barganha sobre a anistia;
Testar até onde o movimento levaria a defesa do “perdão total”;
Sinalizar que qualquer “unidade em torno de Tarcísio” teria um preço político definido pela família.
Ao superdimensionar o valor da desistência — vinculando-a a uma anistia maximalista — Flávio tentou transformar a candidatura em ativo negocial, não apenas na disputa eleitoral. Mas o efeito foi o contrário. O Centrão reagiu e não parece haver espaço para anistia total. A mensagem acabou reforçando um ponto crítico: a direita parece não aceitar mais condições unilaterais impostas pelo sobrenome Bolsonaro.
O que o anúncio mudou na direita
O anúncio de Flávio Bolsonaro revelou uma nova configuração de poder no campo da direita. A primeira mudança foi a perda do monopólio do timing por parte de Jair Bolsonaro. Ao tentar forçar a unidade da coalizão, antecipando a escolha do candidato, o ex-presidente acabou por acelerar uma rebelião interna. A antecipação evidenciou a fragilidade de sua autoridade: quem já tinha dúvidas passou a agir, e os vetos que antes eram silenciados começaram a surgir.
Outra transformação importante ocorreu na posição de Michelle Bolsonaro. Se antes ela vinha sendo tratada como a figura que poderia “escolher a sucessão”, o episódio com Ciro Gomes e a reação do PL evidenciaram os limites de sua influência. Michelle permanece como mobilizadora da base e como autoridade moral relevante no bolsonarismo, mas não necessariamente como articuladora de alianças entre partidos.
O comentário de Flávio sobre ter um “preço” para desistir da candidatura ampliou esse desgaste. Ao transformar a própria disputa presidencial em moeda de negociação, ele abriu espaço para uma reação explícita do Centrão. A resposta foi direta: “política não é amizade; é viabilidade”, como disse Ciro Nogueira, presidente do PP e senador, nos últimos dias.
O resultado mais profundo talvez seja a autonomia dos governadores. Nomes como Romeu Zema, Ratinho Júnior, Ronaldo Caiado e Tarcísio de Freitas olham para 2026 e, de forma pragmática, percebem que Bolsonaro já não consegue impor quem será o candidato da direita. A lealdade retórica ao ex-presidente permanece, mas convive com uma autonomia prática cada vez maior.
Assim, o que antes parecia um campo centralizado se mostrou um espaço com múltiplos vetos simultâneos: o veto da família, o veto de Michelle, o veto do Centrão, o veto dos governadores, o veto dos diretórios estaduais. A famosa “unidade automática” da direita — atribuída ao peso simbólico do sobrenome Bolsonaro — nunca existiu na realidade. O anúncio apenas tornou pública a disputa subterrânea que já vinha crescendo desde a derrota de 2022 e se intensificou após a prisão de Jair Bolsonaro.
Quatro cenários possíveis após o anúncio
A partir dessa mudança de posição relativa entre os atores, quatro caminhos se abrem para esse campo ideológico em 2026.
Cenário 1: Tarcísio unifica a direita com apoio de Bolsonaro
Esse era o cenário “natural” antes do anúncio: Bolsonaro escolheria seu sucessor e a direita tenderia a se alinhar. Nesse cenário, a unidade só ocorrerá se Bolsonaro recuar e retirar a candidatura da família.
Para isso acontecer:
Bolsonaro teria que aceitar que o nome de 2026 não carregaria seu sobrenome;
Flávio precisaria sair com garantias (presidência do Senado, controle do PL no RJ, influência na agenda);
O Centrão teria que demonstrar que rejeitar Flávio seria uma estratégia, não vingança.
Probabilidade hoje: baixa. A unidade dependeria de uma volta atrás.
Cenário 2: Direita fragmentada, com um candidato único fraco
Nesse caso, a direita manteria um único nome formal, mas a campanha não unificaria ninguém.
Na prática:
O PL defenderia Flávio como “herdeiro legítimo”;
Governadores construiriam redes paralelas e campanhas próprias;
Michelle mobilizaria a base ideológica, sem abrir portas para alianças;
O Centrão falaria em unidade, mas negociaria estado a estado.
Probabilidade hoje: mais alta do que antes. Ninguém tem força suficiente para disciplinar o campo.
Cenário 3: Duas candidaturas à direita
Esse cenário agora pode se concretizar. De um lado, surgiria uma candidatura pragmática, apoiada pelo Centrão e pelos governadores, com foco em governabilidade, segurança e alianças. Do outro, a candidatura familiar, com Flávio representando a marca Bolsonaro, apoiada por pastores e influenciadores.
Probabilidade hoje: crescente, alimentada pelo desgaste do “preço” e pelas pesquisas.
Cenário 4: O Centrão captura a direita sem um Bolsonaro
Esse seria o cenário de uma ruptura histórica. Aqui, o Centrão poderia aproveitar o desgaste da família para assumir o comando da direita e lançar uma chapa própria.
Como aconteceria:
PP, PSD e União Brasil formariam uma coalizão de governadores, não de personalidade;
O PL conservaria a marca ideológica, mas perderia a cabeça da chapa;
Michelle viraria símbolo, não decisora;
Bolsonaro permaneceria como figura mártir, sem controle operacional da campanha.
Probabilidade hoje: crescendo. O anúncio de Flávio abriu espaço para uma justificativa política que permitiria ao Centrão impor outro caminho.
Em resumo: o anúncio mostra que a autoridade do sobrenome Bolsonaro não se traduz automaticamente mais em comando político. O campo da direita está aberto — com vetos múltiplos, atores múltiplos e estratégias concorrentes.

