Sobre bioética
Uma conversa com o presidente da Câmara dos Deputados do Uruguai Rodrigo Goñi Reyes sobre como reimaginar a política

Ainda na 152ª Assembleia da Inter-Parliamentary Union (IPU), em Istambul, na Turquia, conversei com Rodrigo Goñi Reyes, presidente da Câmara dos Deputados do Uruguai, sobre como reimaginar a política. É raro encontrar políticos que conseguem pensar a política em um nível mais abstrato, como ficou claro no último texto que publiquei aqui. A conversa completa com Reyes será publicada (em inglês) na ModParl, newsletter sobre modernização legislativa da Fundação POPVOX, com a qual colaboro. Destaco, abaixo, apenas a resposta dele à minha pergunta sobre como ele reimaginaria a política.
Isso é algo em que penso permanentemente. Eu acho que essa resposta não existe porque está claro que a representação mudou substancialmente. O que está claro é que está tudo de cabeça para baixo. Está tudo desordenado. A intermediação clássica, por meio da representação, foi destruída. Agora, eu acho que o novo ainda não está aí.
O que considero fundamental é incluir, entre as coisas novas que temos que fazer nos parlamentos e na política, uma área que estava muito distante da política: a bioética. A bioética era uma disciplina voltada a alguns temas, como a eutanásia, o aborto e a reprodução assistida.
Mas agora a bioética é uma disciplina que necessariamente tem que nos ajudar, a nós políticos, a definir, a reimaginar a política. Para mim, é a grande questão: o que das novas tecnologias temos que adotar e o que do humano temos que preservar? Essa grande pergunta não está respondida por nenhum líder mundial, por nenhum líder político, por nenhum parlamento. Não é um problema que ela não esteja respondida. O problema aparecerá se não a enfrentarmos.
Por isso, no parlamento uruguaio nós aprovamos a norma legal e agora a colocamos em prática e criamos uma Comissão Nacional de Bioética para os novos temas, que basicamente são as novas tecnologias que também impactam e modificam a condição humana. Te dou um exemplo. Há um ano, se você fizesse uma pesquisa aqui sobre o que deveria ser feito com as redes sociais ou as plataformas, 90% diriam que não devemos proibí-las, pois isso fere a liberdade de expressão. Hoje, talvez 90% te digam: algo tem que ser feito. Estamos aprendendo e vendo que a condição humana — a consciência e o pensamento crítico — está sendo danificada de forma irreversível pelas plataformas permanentes. É ótimo que agora estejam surgindo evidências de que características humanas essenciais, mas também da democracia, estão sendo danificadas de forma irreversível pelas redes sociais e que é preciso fazer algo.
Não me atrevo a te dizer como reimaginaria a política, mas te digo que há novas questões, novos dilemas e novas áreas de reflexão que a nova política precisa incorporar.
Antes, o que se discutia era mais Estado, menos Estado, como alcançar a justiça social — com um capitalismo assim ou com mais intervenção? Esses passam a ser temas quase secundários diante do enorme potencial das novas tecnologias. A política também precisa discernir o que adotar das tecnologias, como adotá-las e o que preservar da humanidade.

